28/06/16

António Alçada Baptista: a cor dos dias


Editou e foi editado. Graças a ele tantos escritores puderam sê-lo. Hoje quase o esquecemos. Militou pela sua fé religiosa. Fez da ficção forma de viver a vida. Com a finura do bom-humor, mãe da educação. Nasceu em 1927.


Também ele advogado, envolveu-se de tal modo na escrita que procurou, generosamente, não fosse a sua mas a de outros que tivesse voz. Criou para tanto uma editora, a Moraes, a quem tantos autores devem ter leitores, sobretudo os do “Círculo de Poesia”, deserdados que chegaram ao público através daquela colecção, produzida em “arte povera”, num papel que normalmente se diria afecto, no comércio, ao embrulho de víveres baratos, mas belíssimos no efeito estético e no símbolo que traduziam.
Gastou nisso quanto tinha e, já ultrapassado o limite da prudência, o que não tinha, comprometendo junto da banca, para obter crédito, o seu aval pessoal. Endividado, sem meios já para solver compromissos, teve de encerrar a editora. Numa das suas crónicas relata o pesaroso de uma senhora que quase o admoestava por ter fechado portas àquele seu projecto editorial e a quem teria retorquido, na forma de uma pergunta, sobre se a recalcitrante interlocutora tinha, vez alguma que possa, comprado qualquer livro na agora extinta Moraes. A resposta foi a que se adivinha, um nunca comprei, de facto. E assim se compreendia o porquê de não ter possível aguentar mais.
O seu envolvimento com a edição não se limitou aos livros. Graças ao seu esforço e aos meios que entusiasticamente mobilizou para tal propósito, ganharam luz do dia revistas como “O Tempo e o Modo” e a “Concilium”. Através delas, um pensamento crítico, socialmente empenhado, espiritualmente angustiado, encontrou expressão, numa cruzada de proselitismo religioso através do humanismo cristão. Resumindo o que foi esse caminho entre as pedras, João Bénard da Costa daria título a um pequeno opúsculo a que chamou “Nós, os vencidos do catolicismo”: viveram, de facto, entre uma Igreja oficial, apostólica romana e uma esquerda jacobina, irreligiosa quando não ateia, seguindo no domínio filosófico o personalismo cristão de um Jenn-Marie Domenach e de Emmanuel Mounier, as pegadas, afinal dos que eram o corpo redactorial da revista francesa “Esprit”. O Concílio Vaticano II era o seu guia, o pequeno espaço no Largo do Picadeiro, mesmo ao lado da famigerada PIDE, a sua tertúlia de moderada oposição.
Em 1968 Francisco da Conceição Espadinha, da Editorial Presença, abria-lhe as portas para os primeiros passos no domínio da ficção e da crónica ficcionada.
E é aqui que se situa o livro que escolhi para esta semana.
Curiosamente na vertente deste tipo de escrita Alçada Baptista tem um estilo bem diverso daquele que caracterizou outras obras suas, como as “Conversas com Marcelo Caetano” – que lhe valeu não pouca incompreensão da parte de uma certa esquerda política - ou a “Peregrinação Interior” onde lança as suas reflexões existenciais em torno do problema da transcendência e do sentido da vida. Aluno dos jesuítas, estudante em São Fiel, essa origem haveria de marcar-lhe todo o percurso, mesmo quando temperado com a jovialidade do seu modo social de ser.
No caso deste são crónicas, escorreitas, risonhas, que se lê com gosto e são impossíveis de resumir. Narrativas de memórias, próprias e alheias, coisas de ter ouvido dizer, apontamentos, tudo solto, mas em cada uma com um ponto discreto a deixar caminho para uma, como a “moral da história”, dos antigos contos infantis.
Classificando os escritores como os de memória e os de imaginação, colocava nestes os que não tinham vivido a vida e, por isso, se entroncava o entre os segundos. Viveu-a, e como confessou a Miguel Sousa Tavares, sem ter inimigos, «porque ter inimigos dá muito trabalho”, surpreendido com a “preguiça ostensiva” de uma África para si tão sedutora, terra onde não achou colonizadores sim emigrantes. E escreveu bem sabendo que «a literatura que me interessa está na área do prazer, não do saber e de maneira nenhuma do dever»; e sobretudo, não tendo pudor em partilhar uma conversa que manteve com um seu privilegiado leitor que, gostando muito dos seus livros, lhe introduziu ressalva ao gosto: «gosto, porém, o senhor escreve-os do lado dos ricos e eu leio-os do lado dos pobres».
Só um homem honrado o diz publicamente e é essa honradez que marcou o seu legado. Isso e dedicação aos outros. Num mundo de egoísmo galopante é exemplo e moral, antes de ser literatura.

28/05/16

O Natal do Clandestino


Um pequeno opúsculo. Trouxe-o comigo e sobre ele escrevo nesta viagem em comboio. Hoje sexta-feira fecha-se no jornal a edição. Li-o há muitos anos. História de emigrante pobre, afinal a de tantos portugueses com que Portugal enriqueceu mundo.


O número de advogados que, saturados da profissão, procurou exílio na Literatura é imenso; aqueles que a exerceram com empenho e entusiasmo lançaram nos seus livros muita dessa vivência humana que lhes foi dada experimentar, tal como aqueles que foram médicos e conheceram do ser humano as chagas do corpo, os advogados partilharam as dores da alma.

José Rodrigues Miguéis teve breve experiência como advogado no seu modesto escritório na Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa, mas a suficiente para ter compreendido que aquele não era o seu mundo, ademais enredado em pequenos casos de litígios comerciais, enfadonhos e rotineiros, uma secura do seu espírito vocacionado para outros horizontes. E para outras paragens, pois cedo sentiu o apelo da emigração até porque, republicano e democrata, incompatibilizado com o regime político que nos era dado viver em Portugal nesses tempos de ditadura política e de asfixia da liberdade de expressão.

Exilou-se, pois, nos Estados Unidos da América, onde seguiria uma rica experiência de escritor e de professor. Escrita essa hoje tão esquecida, mas cuja natureza poliédrica e sentida merecia bem melhor sorte.

Trago hoje o que imagino ser uma raridade, pequeno conto de sua autoria, publicado em 1957 pela editora Estúdios Cor, sob cuja chancela tantos dos seus livros saíram, e onde José Saramago iniciaria, dois anos depois, a sua vida literária como funcionário, antes de se lançar ele próprio na escrita que lhe traria, já no final da vida, o Prémio Nobel da Literatura.

O livrinho traduz a experiência americana de Miguéis, que se radicara nos States desde 1935. E evidencia-a na pele de um emigrante pobre cuja viagem para o Novo Mundo é surpreendida por uma das épocas do ano mais nostálgicas para quem está triste e longe de casa, o Natal.

Enriquecido com desenhos de Bernardo Marques, O Natal do Clandestino traz na capa, como se efígie fosse, a imagem do pobre recém-chegado das suas berças, o saco dos poucos haveres enrodilhado na mão e, sobre ele agigantada, a longa mão da autoridade, na forma de um polícia americano, farda imponente e capa sobre os ombros, a simbolizar a chuva, a intempérie, o desconforto.

«Em nós o homem mata o escritor», dissera o autor numa frase que Nataniel Costa lembra num breve prefácio. Nataniel, director literário da editora, que convidaria Saramago para o seu lugar para se dedicar à actividade diplomática. A inversa não é, porém, verdadeira e a escrita de Miguéis mostra-o bem, ao abarcar na paisagem social e dimensão existencial do ser humano, as suas esperanças e desesperos, as ilusões e os fracassos.

E assim surpreende a chegada a Baltimore de um velho navio, gasto e ferrugento, «uma dessas ruínas obscuras que singram vagarosamente os mares do mundo», velho cargueiro «esgalgado», e a bordo dele «um passageiro de que não rezavam os livros de navegação, um só, que não pagara a passagem, entregue aos cuidados cúmplices de um ou dois marinheiros».

Assim fugiam em busca do pão, clandestinos, tantos portugueses, como outros a “salto” pela linha raiana, que não há fronteiras que tolham quando se busca o pão que mata a fome, própria e a dos seus.

Narrativa sobre a marginalidade, sobre os homens que viviam à margem da lei, pobres socorridos por pobres, a própria tripulação do navio andrajosa, escravizada ao porão enegrecido do lugre, território onde «a solidariedade é outra lei sagrada entre os homens que vivem à margem da vida», há nela o contraste, tão típico naquela literatura de intervenção social entre quantos tudo têm e aqueles outros para quem, «homens que rastejam à superfície do globo e da vida, não há outro refúgio se não esse, ou uma cama de aluguer ou uns braços de empréstimo».

História de quem chega ao seu destino escondido na vileza clandestina, mal armado sequer de manhas que lhe permitam enfrentar a autoridade, a lei, privados de tudo, do dinheiro à documentação, incapazes até de falar um rude inglês, defendidos pelo estribilho «não ispique inglishe», eles são, força bruta e animal de carga, um e mais um que chegam, a afeitarem-se, serviçais, a qualquer trabalho que traga sustento e amealhar porque bocas famintas deles esperam que regressem um dia e antes deles as suas remessas de dinheiro e logo que possível umas mal amanhadas linhas que «nós por cá todos bem».

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Texto publicado na coluna Ler em Português no jornal Mundo Português, um semanário dedicado à emigração.

23/04/16

Fernando Namora: retalhos de um povo


Muitos médicos dão em escritores. O drama humano é o seu quotidiano, ou pode sê-lo se à profissão juntarem sensibilidade de alma para os que sofrem e para a vida de onde provêm. No caso de Fernando Namora a isso somou ter iniciado carreira pelo interior do País. A sua escrita traduz crises de existência, as contradições de classe que soube exprimir com sinceridade.


Ao reler Fernando Namora com os olhos de quem sabe, pela aura que em torno de si se criou, espera-se ver literatura crítica para com os poderosos, condoída pelos humildes. E terá alcançado essa posição em algumas das suas obras, não propriamente nesta, que escolhi como tema de crónica.

Lidos com os olhos actualizados, comparados com quanto foi escrito por muitos seus camaradas das letras, estes contos, editados em 1949, são manifestação integral de um homem que ainda não encontrou equilíbrio entre a vida coimbrã de onde proveio, misto de boémia e Arte, e as asperezas do mundo, sovado e iletrado, para o qual se lançou no exercício da sua clínica.

Oriundo de uma família de modestos recursos, natural da aldeia de Monsanto, Fernando Gonçalves Namora soube trazer para a Literatura, porque o reconhecia como seu, tal como Vergílio Ferreira, o vocabulário rural que faz com que, os mais snobes considerem esta escrita como “regionalista” e assim a tentem apoucar, como tentaram com gigantes como Camilo ou Aquilino Ribeiro.

Mas não é isso que importa, nem isso que o ultrapassa mesmo num mundo de hoje em que há cada vez mais que fale com menos palavras do dicionário. O interessante é a crueza, crueldade mesmo da sua verdade.

O médico que ele ali relata, que um leitor segue como sendo o próprio autor que pela ficção escrevesse a sua autobiografia, é um ser que assume amiúde facetas detestáveis. É o domínio do mando, o médico que «se sentia feliz por dispor dos receios ou das lamúrias dos camponeses», o dono da vida e dono da morte.

Autoridade e soberba, diga-se, que sabe quanto isso concita de desprezo, logo o do funcionário de justiça, por exemplo, para quem «nós médicos éramos uns porcalhões, uns tipos endurecidos. Gostávamos de remexer em imundícies», mas desprezo afinal também o dos que a sua prática médica não convencia, antes de não curar. 

Mundo cão, mesmo o seu, profissional, é caldeirão de rancores, vilezas, intrigas, embora o que haja ao longo da narrativa, e dite estes sentimentos negativos, seja o pulsar errante de um jovem médico, inseguro ante a doença, presa fácil do meio hostil e que dá de si a pior face: «O médico – escreve – é, na aldeia, um ornamento público, como a igreja, o padre, o bosque de madeiras afamadas», pois «os camponeses vinham ao consultório para admirar a face imberbe do novo médico ou para concretizar desconfianças».

Reciprocando, a personagem dos Retalhos não se coíbe de dar voz, e uma vez mais supomos ser o autor que fala através dele, a um desprezo pelos naturais onde exerce a sua medicina. É o alentejano para quem «o homem do Norte é (…) o galego» porque «quando arribam os ranchos do Norte, já raros, chegam como inimigos», os alentejanos que «dão nabos às vacas, enjoam a hortaliça. Não têm flores, não têm nada de mimoso»; é o pai, de mulher a esvair-se na agonia de um cancro, enxotar os filhos «com a voz e com os pés, como se enxotasse cães»; as mulheres «glutonas da vida alheia», os camponeses «esses labregos atemorizados» ante os quais ele se sentia «feiticeiro medieval», o homem «bexigoso e amulatado», a «ladroeira dos ciganos», que «eram tão nojentos que causavam ânsias».

Não é fácil assim ler Fernando Namora. Primeiro, porque os seus livros caíram no esquecimento, mesmo este que deu um filme de Jorge Brum do Canto, depois porque, quem puder achar um, duvido que não se sinta com este modo, verdadeiro é certo, de viver a vida com todos os demais.

Trata-se, porém, importa sublinhar, de um grande escritor. Momentos há em que a forma de dizer o mostra em alto nível. Quem, de entre tanto vulgar hoje com livro impresso e fama fácil, escreveria: «O vento gania de saudade de outros lugares, molhava-se de chuva e tristeza, e tudo isso, prisão e desespero, escorria também da minha face».

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Texto publicado na coluna Ler em Português no jornal Mundo Português, um semanário dedicado à emigração.

14/04/16

Fernando Assis Pacheco: Trabalhos e Paixões


Chegaram a Portugal pobres, os galegos. Aceitavam os trabalhos mais modestos, mais duros. Mas o seu espírito empreendedor porfiou. Hoje, muitos lugares na restauração, no comércio, na indústria até, têm a sua marca. Fernando Assis Pacheco, jornalista, soube dar-lhes voz, por ser um de entre eles.

O livro lê-se com um sorriso, embora nem tudo nele seja alegre; sucede que a pena do autor consegue captar no ar a alma daquele povo, resistente, carinhoso nos sentimentos e no vocabulário, em que avultam os diminutivos, gente que em tanto se identifica connosco, os portugueses.
O subtítulo da obra dá o mote àquilo de que nele se trata: Benito Prada é o «galego da Província de Ourense, que veio a Portugal ganhar a vida».
Do que li, há muitos anos, ficou-me na memória a frase com que inicia: «Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa em San Bartolomé». Cortada a cabeça do corpo, o Padeiro «chamuscou-o bem chamuscado», pelas duas da manhã «untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado». 
Este arranque, trágico, violento, cómico na sua rudeza primitiva, marca o tom da escrita. E logo o remate, que estoira com um foguete de lágrimas e risos: «”Caramba”, disse o irmão do meio, que admirava todas as invenções do mais velho, “é à segoviana!”».
Escrita por quem foi jornalista, do extinto semanário “O Jornal”, a obra é um pequenino prodígio quanto ao modo de dizer, de observações acutilantes. É o Grego «que nascera para vender a pele do diabo se lhe dessem percentagem conveniente», é a filha do Manca perante a qual «Benito começou a fazer-se distraído das mãos, a tocar-lhe num ombro, depois num braço, quando a estreitou pela cintura com a desculpa de ver como ficava um saiote de lã (…)», o próprio animal de nome bíblico, «Noé, o mulo (…) um perpétuo sobressalto» e ele, Benito, «em menos de um fósforo estava (…) a tirar a minga dos calções e a mijar bem mijada a palha do almoço de Noé, que se encanitou com o ultraje desenhando um coice», enfim, tantas frases em que o leitor se detém para melhor as saborear.
Dir-se-á que o livro, como todos os romances e novelas tem uma história. Mas que importa ela quando é mais o modo de a contar que interessa? É essa a diferença entre a grande e a mínima Literatura. Hoje, como afinal, sempre, desde que pelo século dezanove a figura do romance ganhou vida, existem livros espessos em que o escritor vai pura e simplesmente contando, cenas, lugares, vidas e lembranças, amiúde com pormenor cinematográfico, fazendo o leitor ver através das letras o que passou a observar melhor quando surgiu o animatógrafo que deu em cinema: são estendais feitos para entreter, em que um sala é inventariada quase que de bibelot em bibelot, os amores infelizes relatados, começando-se pelo tempo em que aos amantes lhes nasceram os avós.
Nada disso aqui. As figuras são reais, mesmo na sua brutalidade, e o picante da sua linguagem picaresca é porque o leitor é transportado para o pequeno mundo onde tudo isso é possível. Que melhor exemplo que o padre Oyarbide que, virando-se para Filemón Prada, pai de Benito, que achava o ritual da igreja uma maçada, o admoesta, primeiro, com um «mas é assim, meu filho, e quem somos nós para mudar uma coisa que vem dos alçapões do tempo?» mas logo a seguir, piedoso e tolerante o absolve: «E também te desculpo a má criação de faltares à missa, porque mais vale não te ver enfastiado e a coçar as partes quando celebro Deus».
Voltarei e este autor assim como voltarei àqueles sobre os quais escrevi as duas crónicas anteriores, Vergílio Ferreira e Fernando Namora: é que decidi-me falar aqui de livros e cada um deles escreveu muitos livros. Dir-me-ão que são livros difíceis de encontrar e sei que é verdade. Mas eis o meu propósito: tornar a leitura procura, como quem sai pela manhã por entre matos e planuras em busca de perdizes, longa sendo a caminhada.

Fernando Santiago Mendes Assis Pacheco, que se definia como «portugalego», morreu em 1995. Neto materno de Santiago Doallo Álvarez, galego da aldeia de Melias, Ourense. Tanta falta faz.

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Esta é uma das crónicas que tenho vindo a publicar no semanário "Mundo Português", cujos leitores são essencialmente os portugueses emigrados. Porque ao contrário do que tantos pensam merecem melhor do que serem tidos por incultos e tratados com o desdém de quem, por ter ficado aqui, se julga mais.

08/12/15

As mãos sumidas


Quando volto aqui e vejo o fosso temporal que se abriu desde o último escrito, humilha-me notar em que selvagem me tornei, interrompidas leituras, livros deixado a meios, mantida a obsessão de os comprar, amarrado à promessa de os ler, moído pela agrura de não ter sido capaz. E tudo isto com a inexorável ampulheta do tempo a escoar-se e a consciência, que nem tudo tranquiliza, de que a vida não são apenas livros. E a nora dos deveres da profissão, à qual burro me amarro, cego a tudo o mais, para que tantos outros tenham o seu pão e eu com eles.
Ontem fui buscá-lo, e aguardava que eu me voltasse a interessar por ele com o mesmo cuidado carinhoso com que o trouxe há meses do Porto, seduzido pela beleza da obra gráfica, atraído pelos esparsos que fui folheando.
São crónicas suas publicadas pelo Jornal da Régua. o lastro humano do sentimento surgido da profissão de médico - essa que traz o grave problema existencial da vida e a inevitável questão da sua precariedade, mais as maleitas do humano e as epidemias da sociedade - que João de Araújo Correia exerceu com devoção.
Trazido à estampa pelo amoroso cuidado de Cruz Santos, pela sua Modo de Ler, que torna cada obra um mimo de beleza e Arte. E resiste e como eu sei o que é resistir como editor, custeando o preço de o ser.
Quando são livros assim, que me parecem despegados como se de folhas soltas fossem, escritos no caso ante a força da "hora de fecho" do periódico que os recebeu - e que dor essa agonia da hora de "entrar na máquina" a prosa ainda a compor-se - dei comigo a ler, em caranguejo, de trás para a frente, em arrecuas discursivos. e a rir baixinho pois era noite, porque é isso que falta a muita da Literatura Contemporânea, a começar pelo que tenho escrito, ausente dela a ironia, confiado o cómico que está aos neopalhaços do circo mediático, boçais até ao rasca, brejeiros para o aplauso e muitos encartados de doutores e que o tornam burlesco e aos jorros de vomitado reles.
E por ali estive, a ler com um lápis na mão, até que me chegou o sono, a terminar o serão com o António Pereira - de alcunha o «sagüi» pelo seu formato simiesco - arisco por fêmea - que «se a menina me desse cúnfia» - mas ela «olhos e ouvidos pasciam-se por longe» - , vindimador «filhote do sítio», calaceiro e manhoso, o capataz a prometer-lhe «quatro ladreiradas nesse costado» e ele, em ânsias de amor a dar-lhe para poeta que «a menina é alta como um castelo onde eu quisera estar preso», mas, triste, daquela tristeza do inconseguido, a morrer solteiro, «solteiro como nascera», ah! mas que «parecia bem no caixão», porque, ungulado de unhas defeituosas como cascos, mãos incapazes de carícia em corpo feminil, «uma senhora teve o cuidado de lhe esconder as unhas nas dobras dum túnica de linho». E assim entrou no mundo dos simples, «ele que nunca se atrevera com vizinha nova ou velha» mas que, suspirante e gemendo, «soltava líricos relinchos ao pé da serraninha».
Adormeci, a tempo de fechar a página e marcar o local, sem dobrar da folha o canto porque seria pecado. E uma sensação de paz confiou-me ao sono.

23/03/15

"A Galinha", de Vergílio Ferreira


Terminados os trabalhos forçados, reconciliei-me esta noite com Vergílio Ferreira como contista porque, ao julgá-lo sobretudo romancista, não gostara do que lera no registo breve que é necessariamente o do conto. E surpreendi-me esta noite com o seu bom humor corrosivo e fina ironia, eu que o tinha por sizudo e carrancudo, azedo, tal como me habituara a vê-lo na intimidade da sua Conta Corrente, o diário de que li na íntegra as duas remordentes séries.
Tudo sucedeu porque li A Galinha, essa notável peça de faiança literária, carregada de momentos surpreendentes no modo de escrever. Logo «porque era uma galinha de barro» ser uma frase que surge ao leitor quando, ante o lido, ele se convencera de que a narrativa incidia sobre um bípede emplumado. E sobretudo porque de uma quezília de inimizade recalcada numa família que tudo ofende se espraia em ódio velho para toda uma aldeia, com saldos cada vez mais positivos - ironicamente as baixas aumentam o saldo - de mortos, feridos, moribundos a que se juntam os que, no intervalo, fenecem de morte natural, mais a guarda e a tropa e a amotinação permanente com contas antigas por ajustar.
Foram, pois, risos na noite, a deixar na vizinhança a ideia de que ensandeci. Lá fora o vento soprava, ele também «escabujando de raiva e de ameaça». E eu aqui, entre folhas e um cobertor que o tempo enregelou, rumo ao final do «escacar a cacaria» - eu, sim, que teria escrito «escaqueirar» porque há termos que nos chegam assim das raízes do berço - de tudo sobejando - num mundo que em pó se há-se tornar - pulverizado o galináceo em faiança a camartelo, a estampa da Santa Bárbara a protectora face às trovoadas.
A Galinha. Conhecia a de Clarice Lispector. Hoje veio outra «castanha nas asas, menos castanha para o pescoço e a crista e o bico tinham a cor de um bico e de uma crista».

11/02/15

Memorial de Aires: contente de tudo


Não escrever aqui não quer dizer que não tenha lido, sim que nem sempre escrevo sobre o que leio. Desta vez achei que tinha de interromper o ler só para mim sem rasto deixar e  talvez por ter chegado ao fim, lido às braçadas, o Memorial de Aires, de Machado de Assis.
Que direi eu que não tenha sido dito, pergunto-me, aqui - como em relação a todos os outros livros - e respondo: direi o que senti, talvez o que me ocorreu naquela zona penumbrosa do pensamento que ainda não são os raciocínios mas já não são as sensações.
E digo.
Primeiro, ter sido com íntimo júbilo que tropecei nas menções que ali se fazem aos "clássicos" por constatar que são os nossos, ao findar o próprio Bernardim Ribeiro, o João de Barros, Dom Francisco Manuel (de Melo), por ser aquele Brasil o Brasil que nós construímos, aquela língua a que conservou o nosso modo antigo de falar e com beleza natural e requebro local.
Depois, tratar-se de Literatura construída sobre um diário de um vida banal, feita de coisas miúdas e de amores por viúva Fidélia que acaba casadoira, namorada e enfim casada, mais pequenas perfídias e gestos grandes, como a sopa de mana Rita que «vale para mim todas as noções estéticas e morais deste mundo e do outro», ou Osório «que não é namorado feliz, pelo que me disse Aguiar hoje, nem mau advogado, pelo que li nos jornais», «um homem que sabe casar zelo e tristeza», afinal  uma narrativa gotejante a ser a própria magnífica vida, essa «assim mesmo, uma repetição de actos * e meneios», mesmo quando «uma afectação de mágoa, algo parecido com o prazer que se encobre».
Enfim, ser uma narrativa em que o desencanto é apenas o que decorre do tempo, porque «todos os meus dias vão contados», no resto «contente de tudo, palavras e silêncio», e sempre a delicadeza do verbo e da forma como quando, já enamorada de Tristão, «a viúva punha certa moderação na ventura, necessária à contiguidade dos dois ** estados, mas esquecia-se algumas vezes, e totalmente no fim» ou o final tristonho dos dois velhos, privados da filha, naquela «orfandade às avessas», a expressão a significar quanto «queriam ser risonhos e mal se podiam consolar. Consolava-os a saudade de si mesmos».
O mais, só lendo. É este o propósito do que escrevo: sugerir leitura, dividir encantamento.



* Na edição portuguesa que li, da Cotovia, está, como no original «atos», assim como «umidade» na página 105. A minha relutância ao dito novo Acordo Ortográfico, para não dizer repugnância, hesitou, porque afinal de um escrito brasileiro se trata. Mas triunfou a força da vontade: acrescentei o "c".

** «dous» no original, fórmula antiga e magnífica como noute e que o adelgaçamento em "i" roubou peso e densidade, aflautando a fonética como se para uma outra semântica.

23/01/15

Jardins Suspensos


Num blog dedicado aos assuntos jurídicos escrevi em Janeiro de 2006 o seguinte:

«Eu tinha dezanove anos e escrevia num jornal chamado «Comércio do Funchal». E por ter dezanove anos dei comigo, atrevido, a fazer um artigo para aquele aguerrido jornalinho sobre «A Justiça dos Pobres», a propósito do que se chamava então a «assistência judiciária». E não é que, por sugestão do advogado Ângelo de Almeida Ribeiro, fui para isso entrevistar o então desembargador Hernâni de Lencastre! Eu tinha dezanove anos e já entristecido com o que adivinhava ser o Direito, fiquei comovido pela grandeza sensível daquela alma, que me recebeu na sua casa, afável e disponível. Agora, morreu o advogado, morreu o juiz, eu já não tenho dezanove anos. O artigo lá anda amarelecido entre os caixotes dos meus papéis velhos, os que já nem leio. E não é que hoje, ao vadiar pelo Chiado, eu vi um livro de sonetos chamado «Reassumida Memória»!. Escreveu-o Hernâni de Lencastre. Dentro, alguém, guardou um recorte de jornal, com a notícia sobre a morte do seu autor. Estava ali tudo, numa banca de alfarrábios: o que fui, o que vi, o que já não volta, sonetos frios de uma memória reassumida, na forma de um poeta que era juiz.»


Nove anos depois, proporcionou a vida um reencontro com a memória. Foi em Alte, no Pólo Museológico Cândido Guerreiro [ver aqui], e como elemento integrante do seu espólio. Ali estava e com dedicatória, oferta do autor, juiz de Direito e poeta, ao advogado e poeta. Outro livro, o mesmo sentimento, o mesmo diálogo intrinsecamente humano, os jardins suspensos da amizade fraterna.

04/01/15

O sonho, uma forma de vida


Leio [aqui] que está traduzido em castelhano, com o título possível Un Mundo Proprio o livro A World of My Own de Graham Greene. Diário de sonhos, há nele a fantasmagoria autobiográfica como em tantos momentos da sua obra, até nas enigmáticas dedicatória de alguns dos livros.
Pensei nisso quando escrevi sobre o seu The Comedians [aqui] texto que remete para uma outra reflexão sobre The End of the Affair [aqui]. Mas não sou capaz de o pensar  a propósito desta obra, talvez pelo burlesco que a acentua, até pela vulgaridade que a desfeia. O seu sucesso deve-se por ventura ao desconchavo, que é receita fácil como se sabe hoje no mundo editorial, como a mixórdia de, onírico, urinar camarões e eles tornarem-se lagostas na sanita, paródia abjeccionista sem graça nem estilo. E talvez à circunstância de o seu autor ter decidido da sua publicação dias antes de morrer, na Suiça, solicitando-a a Yvonne Cloetta, aquela que foi, ambos casados, sua amante durante mais de trinta anos, entretanto falecida [ver aqui].Ou talvez a um qualquer motivo que a pequenez da minha capacidade de entender não alcança.
Biografia, sim, escreveu, mas fê-la terminar aos vinte e sete anos, «anos de falhanço que se seguiram à aceitação da minha primeira novela». Ronceiro, arrastei-me agora à estante onde dormita a totalidade da sua obra para conferir o facto e o que acabo de citar. Encontrei-o na tradução portuguesa feita para a Bertrand por Maria Ondina Braga, publicada em 1971. O livro, que no original de intitula A Sort of Life surge em português como Uma Forma de Vida. Escreveu-o tinha sessenta e seis anos, como eu terei em breve. E nele deixou, a continuar aquela frase, esta flagrância de lucidez: «O falhanço é também uma espécie de morte: a mobília vendida, as gavetas esvaziadas, o camião das mudanças à espera na rua, como um carro fúnebre, para nos levar rumo a um destino menos dispendioso».

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Na foto Graham Greene em Sintra, na Casa Cadaval, com a sua amiga Maria Newall [referi-a aqui quando escrevi sobre a ligação do escritor aos serviços secretos britânicos, a foto consta do livro que o Padre Leopold Durán lhe dedicou, como se pode ver aqui e no qual relata muitos dos seus passeios, incluindo por Portugal]. 
Sobre Maria Ondina Braga enquanto tradutora de Graham Greene, escrevi aqui.

07/11/14

Mudança: Vergílio Ferreira

Leio "Mudança". E pressinto tudo. O homem na sua máxima extensão como manifestação do atributo Humanidade. E vim aqui, talvez imperfeitamente encontrá-lo na voz dos outros e na sua, excerto da obra e do criador,

04/10/14

A dolência da volúpia


Compram-se ao desbarato, as editoras a querem livrar-se de stocks, diminuírem rendas com armazéns, melhorarem a tesouraria, despachá-los a preço abaixo de saldo, rebaixando-os que seja. São preciosidades, porém, que foram retiradas do mercado depois de terem efemeramente passado pelas livrarias, do que o leitor não assíduo nem deu conta.
No caso, trata-se de um escritor que teve muito contra si, desde logo a ideologia política a que se manteve fiel, o ter sido galardoado pelo antigo regime e não se ter transmutado num parvenu de Abril - e ele houve tantos, tantos que se tornaram "antifas" e assim subscreveram a apólice do seguro de vida literária - e depois o tom pícaresco da sua escrita, malandra, de língua solta, a tratar das coisas do tímido coração misturadas com as pulsões do baixo ventre, escrita servida por uma extensão vernácula da vertente vicentina do nosso vocabulário ao que muitas sensibilidade pudibundas sentem o ai!  ambíguo arrepio da rejeição que em si contém o frémito do ui!, o desejo reprimido.
E, no entanto, não há nele a decadência regurgigante da devassidão narrativa nem a redundância semeada a esmo do palavrão canalha, porque cada uma dessas obscenas palavras venais vem da boca onde é certa e natural forma de linguajar da personagem. E há sobretudo a grandeza do domínio do verbo, na carnação susbtantiva do mesmo, lânguido, mordente, amplexo entre o escrito e o lido e «o enlace teve repentes de fera e dolências de volúpia», para tomar a expressão de um dos seus contos.
Estou a lê-lo, interpoladamente como sempre porque para além dos livros há a vida.
Talvez Tens Visto o Antão? não seja o mais expressivo conto que esta antologia reúne, escrito a 21 de Outubro de 2009, meses de morrer, mas é que marca o seu modo de ser e assinala-o até até ao fim como uma marca de água que desse ao papel o discreto timbre.
História da "azougada" Elisette Fernandes, magreza de tísica, resíduo entre tempos de teatro barato, corista de palcos poeirentos pelo Parque Mayer, resto do que fora, idas as luzes, devolvida a caracterização, encerrada a cena, «descendo, com poses de diva, as escadarias finais do acto». História sem história, ela "A Doida do Martinho", o Martinho do Rossio que não o pessoano da Arcada, ela, ali plantada, hirta no seu vestido antiquado, «a cloche enfiada num cabelo tinto negro», louca, porque enlouquecida, transformando ânsias em actos, actos em acusações, estas em escândalos, mamas flácidas que já nenhum chegado lúbrico lhe apalpava e houve tempos mas hoje, porém, pretextava terem sido assediadas por imaginários atrevidos, como na verdade assim em tempos de «noitadas de revista e cabaré, o morno voluptuoso da cama do pecado.»
António Manuel Couto Viana é um grande escritor. Façam dos seus livros o que quiserem haverá quem os recolha amigavelmente, pela sua lírica, pela verdade pungente do que escreve,  o mundo colectivo no seu rodapé, o mundo individual nas suas entranhas.
Ricardo de Saavaedra, que lhe compilou a obra, reuniu em extenso tomo uma longa conversa biográfica, acompanhando-o até ao fim, Por ali dei conta que a estupidez da vida nos fez cruzar sem nos termos encontrado, eu envolto em personagens bufas pelos alcouces da vida pública.
Trouxe-o agora comigo no que nos deixou: a obra, esse modo estranho de um Homem querer ficar.

26/09/14

Mr. da Silva nos States...

Fui juntando a obra toda, nas primitivas edições e naquelas de que a Guimarães interrompeu a reedição e talvez em alguma delas esteja esta conferência, proferida no Círculo Literário Eça de Queiroz no dia 11 de Março de 1942.
Proferiu-a no estilo amável e cortês que era o seu modo público de ser e com ironia.
Viajara até à América a bordo do Clipper, adivinha-se que em missão oficial, ele que encontrara ganha-pão na Secção de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Do que viu deu conta nessa noite, mais, porém, do que sentiu.
Foi a América polifórmica e policroma que nos trouxe, a protestante e a católica, a dos afluentes e a dos miseráveis, a do emigrantes e a dos naturalizados. A América de todas as vitórias e heroicidades, mesmo as que surgiram de derrotas e deserções. A América a afirmar-se na cultura, a América ante a guerra.
Na América em que era, afinal, «um anónimo estrangeiro», Joaquim Belford Correia da Silva, Paço d'Arcos porque neto do primeiro Conde de Paço d'Arcos, transformou-se no "Mr. da Silva nos Estados-Unidos" porque para os yankees ser português era uma espécie de ser africano.
Encontrei o escrito esta tarde. Trouxe-o comigo. Levara quarenta e cinco minutos a ser proferida, a palestra, menos de meia-hora foi o tempo de a ler, com voracidade e luxo. E o gozo íntimo de poder vir aqui e eriçar-me num "voltei".
Há ali o desenho psíquico de um País que não tem Nação mas que tem Pátria, em que o individualismo, a produção em série, o pragmatismo e a especialização são a força e a sua fraqueza.
Ainda hoje tudo é actual e, no entanto, ninguém editará e pouquíssimos lerão. Tive o ensejo. A tarde termina. Todo esse tempo passou. Ficou o sabor na memória gustativa.

10/08/14

É preciso imaginar Sísifo feliz


Sábado, regressados, o Pedro sugeriu um passeio a Cascais. A Gelataria Santini estava a abarrotar, uma serpente gigantesca à porta, aguardando, conformada, a vez de cada um. 
Deu-se, então, na ténue esperança de uma oportunidade, uma volta, em errante veraneio que nos levaria à Livraria Galileu [ver aqui]. 
Vagueando ao acaso, ali, numa prateleira inferior, ei-la a primeira edição de um livro que agora se popularizou, porque numa nova edição.
São notas sobre cada um de alguns livros essenciais da escrita de Albert Camus, reflexivas sem erudição, sentidas. O seu autor tinha então 39 anos: Marcello de Zaffiri Duarte Mathias, «diplomado de carreira», escritor. O livro saira no Brasil em 1975, três anos depois com a chancela da Bertrand.Vou lê-lo com a premência do que estive quase a perder por aquele horrível modo de ser que é o de fazer má cara a algumas capas de livros, como se pouco prometedoras e não conseguir ultrapassar esse limite.
Nessa noite de inesperados encontros, ali mesmo, aguardavam-me ainda os dois tomos da obra da obra do autor de O Estrangeiro, na magnífica edição da La Pléiade [ver aqui].
Tenho, ao que julgo, quanto escreveu, em volumes soltos, comprara outro dia aquela edição revista que a Quarto da Gallimard editara [ver aqui]. Mas não resisti: talvez o papel Bíblia e a sensação macia de o sentir na polpa dos dedos, o odor da pele da encadernação, a caixa sóbria e alva com que cada tomo vem protegido. Talvez, sobretudo, por serem obras de Albert Camus.
Saído da livraria, no calor manso da noite o mundo pareceu mais doce. Um halo argelino invadiu-me, salino, de uma angústia feita de todas as alegrias e dores de um Sísifo feliz

13/07/14

A meteorologia da inteligência


Esta ideia de que no Verão, porque tempo de moleza, quais lagartos ao Sol, já que temos o corpo assado ficamos com os miolos fritos, há que ler tudo quanto é ligeiro, superficial, imbecil mesmo, se não fosse teoria geral para idiotas é, de facto, o campo de eleição para o marketing da chamada "indústria livreira" e seu esgotamento de stocks e a tradução literária do conceito da política, o da silly season, em que o Homem e as moscas se confundem, zumbindo em torno da realidade excrementária da monotonia agora tornada descanso esgotante e território de coisa nenhuma.
Esta ideia de que só a friagem gera a inteligência, inaugurada pela "rentrée" literária e suas novidades fulgurantes, é a projecção racial da noção de que os povos do Norte, são por decorrência climatérica, mais inteligentes porque mais frios já que menos emotivos, a expressão livresca da cultura dos pés frios e seu aborrecimento sistematizado, o totalitarismo da Razão.
Esta ideia de que todos temos de ler o "incontornável", as "escolhas de - " e os "livros de Verão", é uma pandemia que contagia do mais insignificante, ainda que insolente, "suplemento" cultural, o que abre espaço para livros à medida da publicidade paga que aufere, até ao mais snob expoente "for the very  few" que não escapa ao contágio.
Depois há os exibicionistas puros, de cultura enciclopédica em tema e opinião, os que de tudo sabem e tudo lêem, antes de todos os outros e diante de todos os demais, a montra da vaidade do saber exposto, os que já leram o que ninguém sequer sabe que existe e ei-los que, perguntados pela submissa imprensa, sequiosa de uma intimidade que deles mostre o pergaminho e o brazão, nos dizem levar para reler todo o Dostoievski, que já tinham lido aos quinze anos, e a Guerra e Paz e suas mais de quinhentas personagens que vão também veranear entre as termas para o flato e quinta solarenga para a sesta carregados, com metros cúbicos de empanturrante livraria.
Enfim, mundo de registos, ciclos e modas amestradas. Mundo de querer também ser ou ao menos parecer. Mundo em que a individualidade se tornou ontem.

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fonte da omagem: aqui

20/06/14

Naufrágios e lonjuras nas ilhas encantantadas


Eu tenho este horrendo defeito de não gostar, sem ter razão, de certos livros, filmes ou o que seja, desde que sejam gostados por certas e determinadas pessoas que eu detesto. Assim sucedeu com o Jorge Luís Borges até que hoje consegui reunir a obra integral em castelhano e creio que terei já lido a maior parte, transido de admiração. E com tantos outros que até sinto vergonha por ser assim.
Sucedeu o mesmo com o Antonio Tabuchhi.
Mais sucede que todos nós temos uma atávica má-vontade em relação à chamada "Literatura de Aeroporto", até descobrirmos, como eu descobri, ali na Portela, ao começo da manhã, numa viagem de ir e vir no mesmo dia, o chamado voar estafando-se, aquele sobre o que vou hoje escrever e tê-lo lido fascinado, pelo tema, pelo modo de escrever, pelas ondas marítimas de sentimentos que me possuíram nas horas em que lentamente o segui, linha a linha.
É breve na aparência a obra, mas a densidade que provoca na alma, tem um tal peso que o leitor sente atrás de si, como uma embarcação, o rastro da sua navegação.
Tudo se passa em torno dos Açores e das baleias, e da faina que o Mar traz e suas dores.
Se há livros escritos amorosamente este é um deles. Narrativa redigida como se fosse reportagem, com uma pequena estante final, despretensiosa, com o que se pode ler para continuar naquelas águas, tudo nela é desvelo e mimo. A rudeza circundante torna-se beleza dorida.
Que direi eu do que é o livro? Nada, porque peço que o leiam. Ainda por cima a editora está a saldá-los a sete euros e meio o que é uma forma de fomentar a cultura esvaziando armazéns, alegria e tristeza num só gesto.

P. S. Vou comprar o Tabucchi todo! É o costume. Não se é impunemente do signo Carneiro...

30/03/14

Dulce Maria Cardoso: o reencontro

Tive-o nas mãos na livraria e julguei que eu já teria todos os contos que compendiava. Afinal não,  soube ao ler, atrasado, esta tarde de preguiça, a entrevista que o JL publica.
Pela fotografia, que o jornal levava a capa, surgiu-me outra que não o rosto que conhecia de 'Os Meus Sentimentos'.  E de a ter procurado.
Terei, afinal, de tentar encontrá-la, primeiro através do livro. Soube agora que tinha sido Advogada.
Porque nada se sabe.

04/03/14

O amor e os livros


Há aquelas gentilezas dos que amam livros e o pressentem nos outros. 
Ontem um amigo, o Emílio, a quem devolvi uma preciosidade sob a forma de livro que, confiante, me emprestara, à ideia de que me proporcionasse uma visita guiada à sua imensa biblioteca, acrescentou «e se eu não estiver ficas lá a trabalhar no que precisas para o teu livro, porque os folhetos estão em caixas». 
Ontem ainda, outro amigo, daqueles que o são quando tão pouco os conhecemos para além de meia-dúzia de palavras, fez-me chegar  pelo correio uma mão-cheia dos livros que edita sob a chancela da "Opera Omnia". 
Venho falar no "Casas de Escritores no Alentejo", um dos que dedicou aos locais da escrita, as moradas do espírito e que veio entre tantos com que me presenteou.
Folheei-o ainda só com aquela devoção com que se tem nas mãos uma obra de arte. 
E revi-me no desejo de que me acolham essas bibliotecas perdidas ao longo da vida, semeadas pelo acaso como sementes jogadas ao vento. E entre eles eu encontre um canto onde repouse, uma mesa onde escreva e faça as próprias refeições, indistinto aquilo de que um ser se alimenta. E depois, mansamente, alguém dê um destino digno a tudo isso, ou alfarrabista pobre, daqueles cuja banca é uma lona espalhada pelo chão, ou uma simples estante numa parede sozinha, leve tudo, mesmo o que teve dedicatória, até o desprezível e possamos, enfim, fazer alguém feliz.
Um dia cheguei a dizer que, estenderia a mão, pedindo por esmola os livros que não quisessem. Em cada livro , em cada um desses livros já inúteis me pressinto no nervoso folheá-los, a mão incerta.
Por mais que sejam perecíveis, papel em pó se transformem, eles são a pele de um corpo, asperamente sensível como a própria alma.

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Origem da foto: aqui

20/12/13

João Medina: a cissiparidade sem Amor


Retornado do intervalo, voltei a ler. Desta feita um pequeno livro, agora editado pelas Edições Colibri, junção de dois textos separados por mais de quarenta anos de distância, escritos por João Medina, ser de plural cultura, autor da autobiografia ficcionada Memórias do Gato que Ri.
Impressionou-me talvez mais o segundo à medida que nele progredia. Toma como tema um diálogo que fere, ao abrir-se, por ser ingénuo e esperar-se, ante o tema, a grandeza tonitruante e não o a singeleza quase doméstica e pueril com que o escrito surge. 
Trata-se de um insólito diálogo entre van Gogh e a orelha esquerda que amputou num gesto de desespero, cena dramática a que se segue uma reflexão que é toda ela uma convocatória para o que pela teologia une o humano ao sagrado, a angústia existencial que povoa ambos.
Impressionou-me pelo que é a dimensão máxima do humano «coisa tão espantosa e irregular», «mísero ser que veio ao mundo por uma fenda carnal que fica entre o orifício das urinas e o das fezes», mas, afinal aquele que «pode crer em juízos sintéticos a priori ou no dogma da Imaculada Conceição, fabricar pontes, inventar divindades, escrever tratados de finanças e compor sonetos».
Impressionou-me pelo que é o prenúncio do êxtase, na verdade o de quem escreve, o êxtase procurado em toda a parte, naquela vilória provençal, local do seu exílio, «a dormir um sonho imortal à sombra das oliveiras, árvores imortais», procurado «na devoção religiosa», «na entrega total ao serviço dos outros, no Puro Amor dadivoso, no sacrifício de mim», «na Arte, oficiando com pincéis, tela e óleo«, «na visão ardente», mas sempre só, irredutivelmente só «sempre dentro de mim, prisioneiro de duas datas, o do meu nascimento e a da minha morte futura, caminhando isolado entre duas fendas, a da vulva que me expulsou e o túmulo que me há-de engolir de novo».
Chegado ao fim da leitura sente-se que é tempo de parar e reflectir. Não se presenciou a crueldade de uma amputação, algo ficou ali, definitivamente estripado, nas entranhas do leitor, incapaz de se reintegrar na mágica divisão/unidade, essa  cissiparidade dos seres que se multiplicam sem amor, sem união, na pura mecânica do eu.
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Fonte da foto aqui

19/10/13

Criptomnésia e chupismo...


Li e lembrei-me do que sucedeu quando o escritor Luiz Pacheco escreveu o seu diatribe sobre a comparação entre o "Domingo à Tarde" do Fernando Namora e a "Aparição" do Vergílio Ferreira.
Sucedeu ao ler este excerto: «Um dos casos mais conhecidos de "roubo" na literatura talvez seja o romance Lolita, de Vladimir Nabokov, publicado em 1955. Diferentemente do que se imagina, a história do homem culto, que recorda seu caso tórrido com uma pré-adolescente, na verdade foi publicada pela primeira vez sob a forma de um conto pelo alemão Heinz von Lichberg, em 1916. 
O escritor e ensaísta Jonathan Lethem relata a estranha coincidência entre essas duas narrativas no artigo "O êxtase da influência", publicado em 2007 pela Harper''s. No texto, Lethem se detém sobre a possibilidade de Nabokov ter se apoderado da trama conscientemente enquanto esteve em Berlim, em 1937. Outra hipótese levantada pelo ensaísta é a de que um dos romances mais populares do século 20 tenha sido fruto de um fenômeno conhecido como criptomnésia, espécie de plágio "não deliberado" que ocorre quando uma memória ressurge sem que o sujeito se dê conta de sua origem, tratando-a como se fosse original. 
- A criptomnésia é uma memória escondida, que não se sabe ter. O fenômeno pode ser cogitado quando o artista nega ter feito o plágio de forma intencional ou não se lembra de ter "copiado" algo - explica Daniel Martins de Barros, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo e coordenador médico do Núcleo de Psiquiatria Forense e Psicologia Jurídica. 
Para Barros, a tese da criptomnésia, na prática, é muito difícil de ser provada, mas por ser uma tese acatada pela Justiça, pode servir como atenuante. 
- Embora não se trate de uma doença, não há deliberação racional ou produção intencional - pondera. »

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A totalidade do texto citado está aqui
Fonte da foto: aqui

29/08/13

Vila Josephine


Li tanto do Vergílio Ferreira, da ficção à ensaística. Dei comigo a pensar que o conheço, ao seu pequeno mundo, a casa em Fontanelas, à tábua que colocava em cima dos joelhos para escrever, aos acessos de mau humor e à sua interminável Conta Corrente. Sobretudo na sua infância.
Hoje levaram-me, porém, de passeio ao desconhecido, à Vila Josephine, situada em Melo, concelho de Gouveia, lugar da sua origem.
Li as obras onde a referência à sua existência está presente e, afinal, não a reconheci. Imaginava-a pedregosa, sombria, nocturna. Hoje surgiu-me no esplendor do Sol, esfumava-se o dia.
Voltarei à Aparição assim como ao Para Sempre para me reencontrar com a sua realidade tangível. Hoje surgiu-me na reconstrução da poética.

15/08/13

Izas, rabizas...


Talvez seja esta a verdadeira vida, aquela em que a beleza surge, insólita, no pântano da sordidez, a magnificência sobre a generalizada insignificância, a bondade a romper no interstício de um mundo de ferocidade cruel. Feio, dolorosamente muito feio e, no entanto, real.
Peguei no livro porque não estava a entender-me com a sua escrita, porque me magoava as nódoas negras da sensibilidade, porque o Verão quando não atordoa, cegando até ao crime com a sua luminosidade estonteante, supõe, ido o suor, os insectos e a multidão, doçura para o corpo e o fresco de uma sesta depois de um sol ainda temperado pela névoa uma noite que se prolonga pela manhã. 
E, entretanto, negando-se-me a leitura pela incompreensão, o fantasma de que era um dos melhores trechos em língua castelhana e prodígio de um Prémio Nobel da Literatura perseguia-me pela culpa de não estar a ser capaz. de progredir pelas folhas do breve La Familia de Pascual Duarte.
E empapado na sua repugnância lodoso surgiu com outro livro o carinho e a ternura e sobretudo a sua profunda humanidade. Vida de rua, Izas, Rabizas y Colipoteras, aquela outra obra de Camilo José Cela, é uma oportunidade para a genialidade ter voz. 
Quase como num excerto de teatro grego em que a voz do narrador dá o trecho e o tom, também aqui vem ao proscénio o mundo das mulheres que alugam de si o necessário gerando a ilusão de que se dão todas a quem por vezes não ousa querer mais.
Estão todas, em friso e pelas esquinas, cada uma mais trágica e mais patética do que a anterior, arrumadas como se na taxonomia de um compêndio de botânica, espinhosas, carnívoras, de traiçoeira flor, ensarilhadas por um matagal doentio. 
Tudo no livro, desde o léxico ao lançamento da frase é a evidência do sublime em Arte. Dir-se-ia que o tema não, não fosse naquela funda valeta por onde jorra, inútil já, o farto despejo do sémen vital, estar, inutilizada a própria vida que não sucede. A alma aperta-se ao cheiro da retrete em que tudo se torna, já não grita de horror quando um feto despedaçado é encontrado por uns miúdos por entre o lixo. Ali, naquele caudal de amor venal, não há vida para gerar vida.

24/07/13

A doçura do viver


Doçura, Arte, os prazeres da vida e o livro oculto de D. Maria dos Prazeres, o sentido do pecado a amargar a existência, tudo junto, entre o ensaio, a ficção, a técnica. É um livro apetecivel à vista, porque construído sobre as pinturas de Josefa de Óbidos. Coordenado por Francisco Sobral do Rosário, médico endocrinologista, especialista em diabetes e contista como escritor. Juntou um psicólogo de Educação, professor nos EUA, Bob Anderson, uma especialista em História de Arte, professora na Universidade Nova de Lisboa, Raquel Henriques da Silva, um professor de Literatura, crítico e escritor, Miguel Real, e um engenheiro químico e, imagine-se, presidente da Academia Portuguesa de Gastronomia.
Tudo em torno da alimentação racional, do ter fome na cabeça que não com no estômago, na contemplação das naturezas mortas por seres viventes.
Lê-se e revive-se, gustativamente.

21/07/13

O fosso da sem razão


Livro tremendo, o fim da narrativa anunciado desde logo no início: «Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel o pintor que matou Maria Iribarne». E disse, mas um imenso fosso de sem razão abre-se ante o leitor, perplexo e agoniado de dúvida.
É o livro explicação do porquê odioso dessa morte, relato de que em cada momento a ideia da mesma se foi avolumando, tumultuosa, simultaneamente com a descrição, gotejante, de o sentimento do amor a poderia ter evitado? Mais do que isso. 
O Túnel é o diário de todos os cambiantes sentimentais do amor, labiríntico, contraditório, absurdo, vivido com «ódio, desprezo e compaixão», como se dois corredores ou dois túneis os separassem sem jamais convergir, e cada átomo de acto fosse sujeito a um «lúcido mas fantasmagórico exame», com conclusões sempre hipotéticas mas indesmentidas mesmo quando não verdadeiras.
História de uma «lúcida ferocidade» é a razão de um louco contada pelo próprio, vida de seres de fealdade e insignificância, mundo de mentiras e de insensatez.
Sofrido em Buenos Aires, impossível não ver referências próximas como Borges e a sua biblioteca, Borges e a sua cegueira, Borges e, afinal, a consciência moral final da razão conformada com todos os excessos do sentimento, a eles renunciado.
Livro estranho, profundamente real na minúcia do quotidiano que lhe dá desenvoltura, críptico quanto àquilo a que afinal se refere e ao que vem.

06/07/13

Ernesto Sabato, o caminho improvável


Escrevi uma vez e aconselharam-me a não escrever que tenho lacunas culturais tremendas. E que há autores que se dizem «clássicos» mas nunca li, e que me passaram ao lado tantos dos que são tidos por «incontornáveis», expressão que esteve tão em voga. 
Li agora Ernesto Sabato para ir descobrir que tenho na minha estante, entre outros, alguns dos seus livros - e escreveu relativamente poucos- nisso incluindo O Túnel e O Escritor e os Seus Fantasmas. O primeiro a única novela que quis publicar e que, para a ter visto editada, teve de sofrer amargas humilhações de a ver sistematicamente recusada por todas as editoras argentinas e que sairia pela Gallimard francesa graças à intervenção de Albert Camus, tão funda era a mútua compreensão das suas almas. 
Livro triste este que li, biográfico, mas livro de esperança. Livro de quem viveu uma vida e aos oitenta e seis anos reflecte sobre o que foi o caminho errático, incerto, tumultuoso, improvável, «que o destino conduz-nos sempre ao que tínhamos de ser» e «a vida faz-se em rascunho e não nos é dado corrigir as suas páginas».
Livro de alguém a quem doeram as dores alheias e por isso se envolveu na acção política, acreditando e descrendo mas nunca perdendo a esperança.
Livro de quem se fez a negar uma carreira fulgurante no campo das ciências em nome do apelo obscuro daquilo que lhe permitiu, afinal, «expressar horríveis e contraditórias manifestações da [sua] alma, porque nesse obscuro território ambíguo, mas sempre verdadeiro, lutam como inimigos mortais»
Livro de quem viveu em tumulto interior permanente, em fidelidade à sua condição humana.
Antes del Fin esteve para se chamar Memórias de um Desmemoriado, porque são remanescentes do que ficou em que viveu para não lembrar, bem sabendo que «os anos, as desditas, as desilusões, longe de facilitarem o esquecimento, tristemente, reforçam-no». 
São os comoventes os livros que me ficam. Faria minha a sua frase «os livros que li, as teorias que frequentei, deveram-se mais aos meus próprios tropeções com a realidade», tal como ele «nesta complexa, contraditória e inexplicável viagem até à morte que é a vida de qualquer um».
Ernesto Sabato foi uma extraordinária promissora figura no campo da Física, tendo sido bolseiro do Laboratório Curie e do lendário MIT norte-americano. Mas era apenas refúgio o que procurava nas matemáticas materializadas e ante a «prepotência racionalista» e refúgio o que, a partir da década de quarenta, procurou na arte e na literatura e, em grande parte, na ficção, desiludido com «a imbecilidade dos que acreditam que o progresso é o avanço da civilização», quando «chegámos à ignorância através da razão».
Sem que o soubesse «antigas forças, em algum obscuro recinto, preparavam a alquimia que me afastaria para sempre do incontaminado reino da ciência. Enquanto que os crentes, na solenidade dos templos, murmuravam as suas orações, ratazanas famintas devoravam ansiosamente a catedral dos teoremas». 
Este seu livro é uma ode magnífica ao humanismo, o desprezo e a denúncia do «mundo tecnocrático e cientifista», aquele em que «a angústia metafísica e religiosa foi substituída pela eficácia, pela precisão e o saber técnico», tudo o que gerou a paradoxal «desumanização do homem», à mercê das «forças dinâmicas e amorais do dinheiro e da razão», em que «o capitalismo moderno e a ciência positiva são a mesma cara de uma mesma realidade despojada de atributos concretos, de uma abstracta fantasmagoria». 
Manifesto desolado contra o contemporâneo monstro de três cabeças, o racionalismo, o materialismo e o individualismo, expressão de um soldado pelos «excluídos do grande banquete dos economicistas», os que se tornaram numa simples «estatística sociológicas», é a afirmação derradeira daqueles que cantam na hora do suplício! 
Manifesto de quem sabe, conhecendo-as, as sinistras criaturas em que nos estamos tornando, as mesma que Goya surpreendeu, pintando-as, a vida como a volúpia de um tango «esse pensamento triste que se dança».

13/06/13

Vergílio Ferreira: Eros e Thanatos


Prometi que viria aqui falar de Aparição o livro que li há pouco julgando que já o tinha lido na adolescência e que muitos jovens são forçados a ler para, pouco compreendendo, o detestarem, em nome da fantasia pedagógica de que eles são, enquanto massa escolar, pela sensibilidade, aquilo que se pressupõe para um tal livro.

Ante ele ressalta de imediato a natureza auto-biográfica da narrativa, a de um Vergílio Ferreira professor em Évora, tal como Alberto Soares, a personagem principal e narrador da obra, escrevendo-a, goticular, em noite de trevas e luar, granítica, como memória de si e do que foi a sua deambulação, recordação da casa paterna, agora envolta na dimensão trágica do luto.
Com o professorado a narrativa traz-nos a missão inconclusa e repetida, a reclusão interior, forma de exílio em terra estrangeira, à mercê de sentimentos e ressentimentos, da minudência do meio, a impossibilidade de afirmar a própria grandeza e, no fim, a sísifica impossibilidade e o retorno.
Toda a história é uma narrativa humilhada de diminuição, numa cidade onde «qualquer iniciativa cultural é logo abafada de desprezo e banha», mas nenhuma surge.
É a perseguição da aspereza do lugar, «o corpo sovado de insónia», «os olhos ardidos de espertina», a «alucinação de luz», «onde carroças estremecem com um estrépito de ferragens», «Évora mortuária, encruzilhada de raças, ossuários dos séculos e dos sonhos dos homens». 
É essa inviabilidade de compatibilizar o ser e o estar que acaba por lhe contaminar a existência, confinando-o ao sedentarismo do seu canto de escritor, alheando-se progressivamente de tudo o que conhece, de modo cada vez mais profundamente e por isso menos extensamente.Começara com Mudança essa incompreendida e solitária caminhada.
E, no entanto, há vida, erotismo como ofensa à contenção, acicate e castigo, Madame «abundante senhora, loura por antiguidade (...), ousada e astuciosa por direito de mamã», a dominar a cena com a mestria da arte do rebaixamento, sadismo feito "salon" e "boudoir" e Sofia, secreta, «vestido branco, colado como borracha, e um corpo intenso e maleável», o «boleado das curvas», «a cinta fechada disparava-lhe os seios, uma luz inquieta iluminava-lhe os olhos», Sofia que o trafica, negando-se-lhe, depois de o levar e ele obcecado, esfaimado «no limite dos seus seios fortes, das suas ancas volumosas e solenes como uma noite germinadora» ao ponto explosivo do desejo, «presença inquietante, oblíqua de avisos», tudo territórios de negação a uma sensualidade que emana da Terra e por ela para os corpos que a habitam, para se lhe oferecer num acto de sublime desespero e paixão como um único beijo fossem todos os beijos da totalidade do corpo.
A isto mal escapa Ana, nela onde «havia a violência de um prosélito recente ou em crise», a «fúria silogística», o «desejo encarniçado de demonstrares», e em tudo isto se abre a magnífica clareira para Cristina e o seu nocturno de Chopin, imagem ímpar de evidência, afinal a única breve inocência a dar corpo à angustiosa questão da morte, essa «inverosimilhança» ante o nada mais haver na vida «do que beber até ao fim o vinho da iluminação e renascer outra vez», essa «fulguração sem princípio» e por isso ceifada à existência em inesperado instante. 
Joga-se em toda a narrativa o problema central do Homem aquém, imensamente aquém do destino da Humanidade. E, no entanto, sempre a miséria dos humilhados, surge, em emergência dolorosa, cenário de um martirizado Alentejo, em Quaresma social permanente. Quem tem coração que dói não esquece a dor alheia, mesmo quando não arregimentado com soldados da salvação organizada pela Arte comprometida.
«Que sabe a fisiologia sobre os sonhos de um homem?», pergunta o narrador ante o Doutor Moura, na viagem fatídica que os conduz ao encontro com o Bailote, semeador bíblico de mão suplicante, inutilizada já para a única função que o agarrava à vida, enforcado pelo desprezo sem memória que dure no remorso dos outros, morte tão morte qual a do pai do próprio narrador, morte esta que persegue todas as memórias como lembrança e com ela a da velha casa, familiar, originária, local de retorno às origens, a ferocidade contida das partilhas que aflora como um perfume de ganância minifundiária. 
Livro de um humanismo que não quer «apenas um bocado de pão, quer uma consciência e uma planitude», Aparição é o Homem e a Terra toda, incluindo o Céu e o Inferno que dela brota como esperança e medo.
Tanto poderia escrever sobre esta portentoso livro. Tanto.
Escrevo sobre o que se me vincou, desordenada, lacunarmente, por isso, inevitavelmente, sobre o que há nele de perdão. Perdão para o adolescente Carolino, «a viver uma inquietante separação de si, não sei se para um encontro lúcido consigo, se para uma união de loucura», a triunfar, porém, pela vitória adulta não do que em si era perplexidade atulambada mas potência e sexo e por isso com Ana, viril mesmo quando patético que seja, perdão para Tomás, mulher e sua ranchada de filhos, lavrador e com ele a virgindade sempre desflorada da Terra pela frutificação de si, nobreza de acto que suplanta os dourados da cultura, os engalanados dos livros, anseio de paz, de família, do afago de companhia, perdão para o que é simples mesmo rude, para o "Manuel Pateta", animal de carga alimentado a bebedeira, para todos, para tudo quanto é bronco e brejeiro mas afinal sincero e verdadeiro, lugares «onde a boa disposição tinha a sólida base de um estômago cumpridor».

02/05/13

A gramática portuguesa à procura de Ruben A.





Aqui fica o texto do que li ante a Sociedade de Língua no passado dia 30 de Abril. Não sou especialista em Literatura, apenas um leitor. 

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O tema nasce porque o leitor de português no King’s College, onde obtivera o grau académico de Master of Arts, Ruben Alfredo Andresen Leitão, perdeu, em 1951, o lugar, devido a pressões do Governo de Lisboa, na sequência do segundo volume que no ano transacto fizera editar, o das suas Páginas. Motivo directo: heterodoxia sintáctica. 

Por detrás da conformidade do escrito com as regras linguísticas estavam também dois factores: o político, decorrente do conteúdo do relato e a intriga, rodeada esta numa penumbra sentimental que envolveria uma senhora, alegada denunciante, frustrada de amores pelo seu irmão José. 

Destas duas últimas razões, a primeira faz sentido no contexto relativo da época: o escrito abunda em menções de substância crítica à Inglaterra, onde o autor desempenhava funções académicas e à própria realidade portuguesa, a primeira apta a criar dificuldades à política externa face à nossa mais velha aliada, a Loira Albion, a segunda, à “política do espírito” que reinava como ideologia securitária culural do Estado Novo. A segunda é a eterna fonte das acções humanas, a simbiose do ódio pelo não amor, o despeito. 

A causa primeira, a causa eficiente como lhe chamaria Aristóteles, essa porém, é um insólito que ainda hoje ecoa e me me animou a revivê-la aqui. 

O livro havia sido composto nas Oficinas Gráficas da Coimbra Editora, cidade onde o autor fizera estudos universitários, editado, no entanto, a expensas suas, e com venda reduzidíssima, facto que ainda hoje pertence ao domínio da petite histoire editorial. «Os meus livros raro chegam a atingir um grau medíocre de comunicação», diria mais tarde. 

Nele compendiavam-se dispersos, apontamentos de viagens, de presença e de ausência, notas pessoais, o ego do escritor em acção, traduzindo o sentir em que muitos se poderiam rever no silêncio da leitura. Nada de extraordinário neste País de emigrantes e Nação de poetas. 

O estilo era, porém, incomum, a tocar o revolucionário para a época, mesmo relevando as estonteantes piruetas estilísticas que os anos vinte haviam trazido ao regime político de Lisboa no domínio da Literatura, através dos modernistas que António Ferro convocara e, entre todos eles, como genial ímpar, José de Almada Negreiros, o autor da verrinosa Cena do Ódio e de toda uma escrita contorcionista apta a surpreender. 

O autor tinha então 29 anos de idade e, como se exprimiria mais tarde, quase vinte anos volvidos, «ambicionava criar uma linguagem que libertasse a minha sensibilidade» e por isso mesmo «não podia usar a linguagem do Costa, porque o que eu tinha a dizer não era de modo nenhum o que o Costa dizia». 

Verdade é que foi por causa do estilo que a matéria subiu à mão do contido e sóbrio Presidente do Conselho de Ministros, o qual redigiu, nas folhas de bloco em que se confiou para a História, notas de leitura que endereçou ao Ministro da Educação na altura, Fernando Pires de Lima. 

Eis a primeira vez que o ditador teve o ensejo de exercer crítica literária, e fê-lo num aquém absolutamente humilhante da sua personalidade de estadista, perplexo e ofendido mesmo no seu conservadorismo atávico, ante o que lia.

Dois excertos: 

«Lá fora o Juiz falava calmamente da natureza, dos pássaros, das colheitas e na generalidade aceitava o uivar constantes da multidão profundamente sexuada pelas áreas de La Bella. A rivalidade entre o Juiz e o escroque máximo – para a posse da prima-dona – atingiu uma troca de palavras baixas, feias, confidenciais – prostituídas rapidamente assimiladas pela careca bailarínica do Engenheiro C. do M.G. dos C. em particular». 

«A mentirosa de Londres – a mulher de boca podre também me aldrabou. Alguns amigos – ao jantar – ouviram condescendentemente um bêbado que pelo facto de cheirar mal era o charme de Londres. A Mentirosa beijou-o num vislumbre sujo de mau hálito. Há poucos dias voltei a encontrá-la e tornou a mentir pela fama baixa que deita – em casa toma atitudes onézimas e, quando bem atestada pelo enfrasque do vinho ou das borras, só sabe falar verdade quando mente, prevenido encaixei algumas cujo sentido prático se desdobrava em sexo.»

Recorda-a, a essa ira salazarista, o irmão José Andresen Leitão, depois de ter feito uma privada investigação junto do Instituto de Alta Cultura, de que o controverso autor era bolseiro, e através de elementos que o Secretário do Ministro, António Miranda, para isso lhe facultou. 

Em quatro páginas Salazar procedera a uma crítica «violenta, arrasante, doutrinal». Segundo o Secretário ministerial, o livro «tocou profundamente o seu edifício lógico, ordeiro e convencional». 

Do manuscrito ficam estas frases a traduzir a visão do que da biografia e escrita do leitor em Londres ficara no espírito de retraída libido do Chefe do Governo: «pertence a uma boa família do Porto»; «há páginas completamente ininteligíveis e irredutíveis na análise das regras da gramática portuguesa recheadas de termos de invenção do Autor»; «explora-se o reles, o ordinário, o palavreado porco não só da língua literária e do falar corrente»; «as porcarias absurdas, palavrões juncam o livro»; «em certas passagens é chocarreiramente desabrido com os ingleses»; «de certa corrente modernista e isso é um caso para a censura e a polícia»; «o Autor deve pertencer a um tipo de pessoas que a polícia persegue»; «o Autor não pode representar Portugal nem ensinar português». 

Enfim, era o atestado de mau comportamento moral e civil, barramento para a função pública, ao limite, perto quase, nas entrelinhas, da fronteira que enxotara do serviço público António Botto, demitido em Novembro de 1942 entre outras coisas por «não manter na repartição a devida compostura e aprumo, dirigindo galanteios e frases de sentido equívoco a um seu colega, denunciando tendências condenadas pela moral social» e «fazer versos e recitá-los durante as horas regulamentares do funcionamento da repartição, prejudicando assim não só o rendimento dos serviços mas a sua própria disciplina interna.» 

Sucede que os ingleses reagiram mal a esta intervenção moralista literária do Chefe do Executivo português e o Reitor da Universidade de Londres fez sentir, por via diplomática mas de modo suficientemente trovejante, que se não deixavam o Governo trabalhista britânico imiscuir-se na Universidade, menos ainda ao iriam tolerar a um Governo estrangeiro. 

Ante isto, e o demais que se deve ter seguido no sentido de isolar Salazar, este, a 25 de Julho de 1951 escreve um cartão a Pires de Lima, no qual consigna: «Só hoje me mandaram os seus cartões e papéis relativos ao leitorado em Londres. Devolvo estes. Não há objecção ao que se pretende visto que o maluco do homem tem habilidade e competência para o cargo». 

Eis, pois, aquilo que me traz aqui a este jantar: o «maluco do homem», genial escritor e os malefícios da gramática portuguesa. 

Se Londres resistiu a cedê-lo à polícia do gosto, Ruben Andresen Leitão, humilhado, abandonou o cargo. Regressou a Lisboa, prostrado, isolado, e sem meios. «Escrever foi lutar», como notaria Jacinto Baptista, em homenagem póstuma. E lutou, escrevendo. 

De emprego em emprego, começando pela Lever, seria a Embaixada do Brasil que se lhe garantiria lugar certo entre 1954 a 1972, e Vitorino Nemésio quem lhe alcançaria, em 1962, o posto de responsável pelo Instituto de Cultura Brasileira na Faculdade de Letras de Lisboa. Por um ano, em 1953, ensinaria no Liceu D. João de Castro. Em 1959, devido aos seus estudos sobre D. Pedro V, marco interessante na biografia daquele magnífico monarca, é eleito sócio correspondente da Academia Portuguesa de História. Só mais tarde, porém, em 1972 quando, com a liberalização do regime ensaiada por Marcello Caetano, alcançaria o posto de administrador da Imprensa Nacional. 

Com o 25 de Abril João de Freitas Branco fá-lo-ia nomear por Vasco Gonçalves Director-Geral dos Assuntos Culturais, mas Ruben, irrequieto, atordoante, não se coaduna com o cargo, menos ainda com os militares. The right man at the wrong place, at the wrong time. 

«A asneira não é privilégio das direitas ou das esquerdas, é uma constante nacional», escreveu um dia. Resumia-se, assim, o seu infortúnio com a política da cultura. Restava a grandeza da Literatura, a língua portuguesa como a sua Pátria. 

A ela regressava para aquilo que denominaria, em síntese conclusiva, a «explosão do absurdo», o «encontro do ser normal Ruben Andresen Leitão com o outro personagem», o escritor Ruben A., com quem jogaria a dualidade típica do seu signo astrológico, Gémeos. 

Mais tarde, o risível antagonismo irrompe em diálogo com Ruben B., o reprovado escolar que treparia à fortuna, à “barriguinha”, ao Buick à porta e mais seis filhos. Era o vértice do triângulo existência/literatura/sociedade, no qual surgiria o furacão criador de si. [para ler o resto clicar aqui]

30/12/12

A fossa trituradora

O livro é tremendo. Breve mas lento ao ler-se, porque aleija, porque vai encharcando a alma de sentimentos, rememorações, pensamentos. Há nele uma narrativa que lembra o mundo enclausurado de Kafka, também ele checo.
O subterrâneo é o seu lugar alegórico, qual caverna de suplícios, porão de escravidão operária. Mas é um livro sobre a vida.
Hanta trabalha numa prensa que reduz papel a um compacto que, depois de reciclado, dará novo papel. Trinta e cinco anos de trabalho e uma identificação do homem com a sua máquina, da função com o seu destino. Lentamente adivinha-se o final daquele homem tornado carcaça, carcomido pela dor e pelo dever, minado pela contemporaneidade.
O triturado é amálgama do que mais diverso seja papel, sejam sacos poeirentos de cimento, embrulhos sanguinolentos de talhos ou bibliotecas inteiras jogadas para o fosso da inutilização, às quais retira, sem que isso interesse a quem seja, preciosidades que o génio humano encerrou em livro, salvando da morte a ideia como se resgatasse da guilhotina a cabeça que a gerou.
É neste cenário que Bohumil Hrabal constrói esta sua magnífica narrativa, afinal um ensaio sobre a transcendência onde ela menos se espera, feita de asco e de sublimação. Um livro de que se não pode revelar o segredo, pela impossibilidade de o transmitir intacto.
Todos os seus livros são auto-biográficos. Depois deste encomendei outro, agora em edição espanhola e uma sua biografia. O primeiro chegou antes deste fim-de-semana alongado. Lê-lo-ei depois, não sem que deseje voltar a este, a "Uma Solidão Demasiado Ruidosa", publicado já em 1992 pela Afrontamento. A história de uma fossa trituradora, afinal a alquimia essencial do que vive provindo do que morreu.
 
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