27/08/09

The End of the Affair, de Graham Greene

Em 1941 o escritor Graham Greene trabalhou nos serviços secretos britânicos, na Secção V do MI6, colocado no departamento português do desk ibérico, sob as ordens de «Kim» Philby. Philby revelar-se-ia, com escândalo, uma «toupeira» do KGB. Tendo escapado para a União Soviética escreveria dali um livro de memórias intitulado My Silent War, que em Portugal foi editado pela Bertrand com o título erróneo de A Guerra do Silêncio. Greene escreveu o texto de apresentação e nele fez constar uma frase que se tornou notória: quantos de nós traímos algo de bem mais importante do que um país.
The End of the Affair é a magnífica narrativa dessa problemática, da fidelidade a um amor, a uma crença, a uma religião. O livro está dedicado a «C» mas sob esta letra consegue-se reconstituir o nome de Catherine Waltson, um dos muitos amores adúlteros do escritor. A edição americana menciona mesmo «para Catherine».
Catherine Compton Walston era mulher de um homem de negócios britânico. Uma manhã, em 1946, o seu avião particular aterra perto da casa do escritor. Tímida Vivienne Greene recebe-a, na ausência do marido. A visita traz um inesperado pedido. Americana de origem, decidira converter-se ao catolicismo e pretende que o autor de The Lawless Roads seja o seu padrinho de baptismo. Um ano depois, padrinho e afilhada envolvem-se num relacionamento que traria assim, pela natureza do sacramento que os une, um travo incestuoso.
Sexo clandestino, a princípio, aquele que os atrai, recebe, para o dissimular, um nome de código, que ambos combinam como o santo e a senha para os encontros íntimos: «onions». No romance o encontro amoroso entre Sarah e Maurice começara com um jantar de bife de cebolada.
União decadente, esta dava ao escritor a possibilidade de ver realizadas as suas mais negras fantasias. Com ela se transpuseram os limites do convencional. Odisseias inconfessáveis foram então atingidas entre ambos. Em 1950, estando Greene em Veneza a filmar The Stranger's Hand tê-la-á feito acompanhá-lo a um bordel, vestida de homem e caracterizada como tal, ambos com um amigo comum, que relataria quanto ela «gozara como um homem» o que ali se podia fruir. Sexo insano e demencial mas profundo amor, terminaria em 1948. «Uma história não tem começo nem fim», assim começa o livro. Eis a narrativa da intemporalidade.
 
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